29 de dez. de 2010

COMO ESTOU CONSTRUINDO O MEU FUTURO?


Na sala de aula, Ribamar era um aluno muito difícil de lidar. Era grosseiro e estudava apenas para tirar notas. Seus pais trabalhavam muito e quase não tinham tempo para ele. Quando chegavam do trabalho, ele já estava dormindo. Quando ele acordava, Rosa, a secretária da casa, é que cuidava dele. Na verdade, Ribamar era um menino muito infeliz...

Tinha alguns amigos que pareciam muito com ele. Falar alto e não respeitar a autoridade e o conhecimento dos professores eram cartas do baralho desse grupo. Irritar os colegas parecia o mais interessante na escola. Fazer tarefas só de vez em quando, apenas como uma obrigação, jamais um dever, um prazer, um instrumento de crescimento intelectual...

Hilária, uma aluna muito estudiosa e sensível, sofria muito com a atitude desses seus colegas. Todos os dias ia para casa, imaginando o que fazer para tirá-los desse caminho. Ela percebia o prejuízo que eles causavam para ela e para toda a turma. Afinal de contas, a paz, a tranquilidade, as boas relações passavam distante daquela sala.

Eis que um dia ela teve uma grande ideia. Logo na primeira aula da terça-feira, ela conversou com a professora de Arte e contou o seu plano. Dona Romênia pediu para que ela convidasse todos para uma reunião na sexta aula. Foi aí que explicou tudo. Criar uma peça de teatro colocando os alunos para representar os professores durante as aulas. Ela queria que eles passassem na pele o que sofrem os professores para ensinar. Tudo muito bem ensaiado, seria uma grande atração durante a semana cultural da escola. Todos receberam a ideia com muita alegria e logo marcaram um encontro para o planejamento do texto, do cenário etc. Sutilmente, ela escolheu os alunos indisciplinados para representarem os professores.

Vários grupos de trabalho foram formados. O de construção de texto tinha a participação de Hilária, Ribamar e a sua “turma”. Uma escolha que ela fez de propósito. Era o tempo que ela imaginava para convencê-los de mudar de atitudes negativas. E durante quinze dias eles conversaram bastante. Ela fez questão de mostrar-lhes as consequências negativas de suas atitudes grosseiras: a pobreza de conhecimentos adquiridos, a falta de paz constante, o desgaste dos professores e das coordenações, a má formação da sociedade etc. De fato, com essa postura não havia nenhuma vantagem para ninguém.

Todos fizeram a sua parte com dedicação . Chegou o grande dia. A expectativa era muito grande quanto à atuação dos jovens “atores”. A peça não poderia ter uma conotação de desrespeito aos professores e alunos, mas uma tentativa de uma profunda reflexão. Todos, muito ansiosos, aguardavam o momento para começar. Ribamar estava pensativo, angustiado, com um senso de responsabilidade nunca antes visto. Hilária, agora a sua amiga favorita, dava-lhe muita força, embora, bem no fundo, sofria também a dor que até os grandes atores sentem numa estreia, uma imensurável tensão emocional .

Eis que o apresentador pede a atenção de todos para assistirem à peça Revendo os Meus Valores Estudantis, uma produção exclusiva da 8º ano. Todos estavam impecáveis. O figurino muito idêntico ao dos professores. O tom de voz, o texto bem decorado, os efeitos sonoros... Tudo muito caprichado.

Quando a peça terminou, Ribamar foi o mais assediado. Todos os professores foram abraçar os alunos e parabenizá-los. Hilária estava exultante. Mas longe de imaginar as consequência de sua ideia.

No dia seguinte, na primeira aula, nenhum grito, nenhuma maneira deseducada de algum aluno. Os professores não reclamaram mais a falta de atenção. Durante o intervalo e outro, os professores cochichavam sobre a mudança. Alguns faziam o sinal da cruz como forma de agradecimento. E na hora do recreio, todos festejaram a mudança de atitude dos alunos. Muitos professores que só falavam gritando, agora baixaram a voz. Outros ficaram mais engraçados, pois sabiam que qualquer brincadeira não seria motivo de discórdia, desunião...

Tudo mudou naquela sala de aula. Sara teve uma grande ideia, de fato. E você, o que pode fazer para ajudar aos seus colegas enxergarem o que Ribamar e sua turma conseguiram? Talvez uma carta, uma poesia, um cartaz, uma conversa, uma ideia qualquer... Ou você vai preferir, daqui a alguns anos, ser como os pais de Ribamar, de José, de Pedro, de Luiz...? Eu entendo que bobo é quem perde tempo valorizando a ausência de paz e a presença da ignorância. E você?

2002