Numa
viagem introspectiva nesta tarde, questionei-me sobre tamanha desmotivação para
a Copa da Rússia. Não lembrei, em nenhum momento, o sofrível 7 a 1 que a
Alemanha nos abateu em 2014. Outras derrotas já foram até maiores, como em
1982, quando a melhor Seleção que vi jogar, não foi campeã, perdendo para a
Itália de 3 a 2 ainda na segunda fase.
Devo
ter assistido, com entendimento, cerca de dez ou onze Copas. Todas de forma
muito entusiástica. Mas essa não estou com o desejo de vê-la efusivamente. Certamente,
assistirei aos jogos, pois a arte que está nos esquemas táticos e nos atletas
me atraem. Confesso, porém, que não me vejo torcendo. Não me percebo com a
emoção do passado.
O
Brasil tem um pouco mais de duzentos e nove milhões de habitantes. Esses números
retirados ipsis litteris do site
agenciabrasil.ebc.com.br, fazem-nos refletir. Vejamos:
·
25,4%
da população vivem na linha de pobreza e têm renda familiar equivalente a R$
387,07.
·
As mulheres ganham,
em geral, bem menos que os homens mesmo exercendo as mesmas funções.
·
Por raça e cor: os
trabalhadores pretos ou pardos respondem pelo maior número de desempregados,
têm menor escolaridade, ganham menos, moram mal e começam a trabalhar bem mais
cedo exatamente por ter menor nível de escolaridade.
·
Um país onde a renda
per capita dos 20% que ganham mais, cerca de R$ 4,5 mil, chega a ser mais de 18
vezes que o rendimento médio dos que ganham menos e com menores rendimentos por
pessoa – cerca de R$ 243.
·
No que diz respeito
à distribuição de renda no país, a Síntese dos Indicadores Sociais 2017
comprovou, mais uma vez, que o Brasil continua um país de alta desigualdade de
renda, inclusive, quando comparado a outras nações da América Latina, região
onde a desigualdade é mais acentuada.
·
Em 2017, as taxas de
desocupação da população preta ou parda foram superiores às da população branca
em todos os níveis de instrução.
Poderia
ainda lamentar as privatizações indevidas do governo atual; o ódio reinante
entre brasileiros que pensam diferente; o absurdo e diário ataques aos negros,
índios e homossexuais; o comportamento corruptível dos políticos; a Justiça
seletiva; o sistema educacional que não forma leitores, escritores, oradores,
pesquisadores nem pensadores; a exploração monetária das igrejas da
“prosperidade”; a mídia a serviço do capital; a desvalorização da cultura
popular; a evolução do mercado fonográfico com foco no topo do idiotismo; a
inconsciência ambiental; o desperdício
de mais de 40 mil toneladas de alimentos por dia; a perda de mais de sessenta
mil brasileiros assassinados só no ano passado; 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro (dados
de 2016, segundo pesquisa Retratos da Leitura); Brasil tem 12 assassinatos de
mulheres e 135 estupros por dia, mostra balanço mais de treze milhões de
brasileiros estão desempregados, enquanto o técnico da seleção recebe R$ 875.000,00
mensais só da Confederação Brasileira de Futebol, e o patrimônio líquido de
Neymar passa de noventa milhões de euros...
Claro que muitos são problemas velhos também de outras copas, mas
confesso que dói muito ver tantos brasileiros de volta ao desumano mundo da
miséria, e outros que de lá nunca saíram; dói muito ver um
número tão grande de cristãos que alimentam
o rancor e a devoção ao poder, ao dinheiro; dói muito ver tantos defenderem uma ditadura militar sem saber o
que dizem; dói muito assistir aos elevados números de dependentes químicos sem
nenhum combate governamental eficaz... Percebo que todos esses e outros problemas
são a realidade de um país que padece e que não mudará soerguendo uma Copa. Precisamos sair desse
berço que não tem nada de esplêndido. Como diria Vandré: “Quem sabe faz a hora,
não espera acontecer.” Assim, daremos novo vigor para a nossa autoestima.
Deixaremos para trás essa imagem de pato que se construiu recentemente. Eu prefiro a luta à diversão. Meu clima é de
dor e tristeza. Mas ainda alimento a esperança. E você?
ALDO LUNA – 11/06/18