19 de jun. de 2018

NÃO À COPA


Numa viagem introspectiva nesta tarde, questionei-me sobre tamanha desmotivação para a Copa da Rússia. Não lembrei, em nenhum momento, o sofrível 7 a 1 que a Alemanha nos abateu em 2014. Outras derrotas já foram até maiores, como em 1982, quando a melhor Seleção que vi jogar, não foi campeã, perdendo para a Itália de 3 a 2 ainda na segunda fase.
Devo ter assistido, com entendimento, cerca de dez ou onze Copas. Todas de forma muito entusiástica. Mas essa não estou com o desejo de vê-la efusivamente. Certamente, assistirei aos jogos, pois a arte que está nos esquemas táticos e nos atletas me atraem. Confesso, porém, que não me vejo torcendo. Não me percebo com a emoção do passado.
O Brasil tem um pouco mais de duzentos e nove milhões de habitantes. Esses números retirados ipsis litteris  do site agenciabrasil.ebc.com.br, fazem-nos refletir. Vejamos:
·         25,4% da população vivem na linha de pobreza e têm renda familiar equivalente a R$ 387,07.
·         As mulheres ganham, em geral, bem menos que os homens mesmo exercendo as mesmas funções.
·         Por raça e cor: os trabalhadores pretos ou pardos respondem pelo maior número de desempregados, têm menor escolaridade, ganham menos, moram mal e começam a trabalhar bem mais cedo exatamente por ter menor nível de escolaridade.
·         Um país onde a renda per capita dos 20% que ganham mais, cerca de R$ 4,5 mil, chega a ser mais de 18 vezes que o rendimento médio dos que ganham menos e com menores rendimentos por pessoa – cerca de R$ 243.
·         No que diz respeito à distribuição de renda no país, a Síntese dos Indicadores Sociais 2017 comprovou, mais uma vez, que o Brasil continua um país de alta desigualdade de renda, inclusive, quando comparado a outras nações da América Latina, região onde a desigualdade é mais acentuada.
·         Em 2017, as taxas de desocupação da população preta ou parda foram superiores às da população branca em todos os níveis de instrução.
Poderia ainda lamentar as privatizações indevidas do governo atual; o ódio reinante entre brasileiros que pensam diferente; o absurdo e diário ataques aos negros, índios e homossexuais; o comportamento corruptível dos políticos; a Justiça seletiva; o sistema educacional que não forma leitores, escritores, oradores, pesquisadores nem pensadores; a exploração monetária das igrejas da “prosperidade”; a mídia a serviço do capital; a desvalorização da cultura popular; a evolução do mercado fonográfico com foco no topo do idiotismo; a inconsciência ambiental;  o desperdício de mais de 40 mil toneladas de alimentos por dia; a perda de mais de sessenta mil brasileiros assassinados só no ano passado; 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro (dados de 2016, segundo pesquisa Retratos da Leitura); Brasil tem 12 assassinatos de mulheres e 135 estupros por dia, mostra balanço  mais de treze milhões de brasileiros estão desempregados, enquanto o técnico da seleção recebe R$ 875.000,00 mensais só da Confederação Brasileira de Futebol, e o patrimônio líquido de Neymar passa de noventa milhões de euros...
Claro que muitos são problemas velhos também de outras copas, mas confesso que dói muito ver tantos  brasileiros de volta ao desumano mundo da miséria, e outros que de lá nunca saíram; dói muito  ver  um número tão grande de cristãos que  alimentam o rancor e a devoção ao poder, ao dinheiro; dói muito  ver tantos  defenderem uma ditadura militar sem saber o que dizem; dói muito assistir aos elevados números de dependentes químicos sem nenhum combate governamental eficaz... Percebo que todos esses e outros problemas são a realidade de um país que padece e que não mudará  soerguendo uma Copa. Precisamos sair desse berço que não tem nada de esplêndido. Como diria Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Assim, daremos novo vigor para a nossa autoestima. Deixaremos para trás essa imagem de pato que se construiu recentemente.  Eu prefiro a luta à diversão. Meu clima é de dor e tristeza. Mas ainda alimento a esperança. E você?  
ALDO LUNA – 11/06/18