Acabo de ler
com muita alegria mais um livro de Rubem Alves. Desta feita, DO UNIVERSO À
JABUTICABA. De leitura fácil, o pedagogo, poeta, cronista, ensaísta, contador
de história e psicanalista usa com sabedoria
ímpar cada palavra que escolhe. São profundas reflexões. Na verdade, uma
coletânea de ideias sobre como ele vê a vida nos mais variados aspectos. É de
ficar lamentando ao chegar o epílogo.
Então, trago à
tona alguns dos seus encantadores pensamentos, pontos de vista que enobrecem qualquer ser realmente
humano. Como sou amante da boa música, logo no início fiquei reflexivo quando
ele diz: “Ouvir música é encontrar-me com a beleza que existe dentro de mim”.
Então pensei sobre o excesso de feiura de tantos que optam por músicas tão
pobres em letra e em melodia. Canções que refletem preconceitos e intolerâncias
sociais gritantes. Só mesmo uma educação musical escolar para reverter essa
realidade.
Quase ninguém
fica à vontade quando precisa falar sobre a morte. Não somos educados para
falar sobre isso. Como pode, algo tão real, tão cotidiano, tão irreversível ser
visto de forma tão distante? Sobre ela, o psicanalista evidencia: “...a Morte
nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo
com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não
tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetuamos. Embora a gente não
saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a
Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa
surge a Beleza... Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que
ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo a perder. É preciso viver agora! Não se pode
deixar o amor para depois...” Para que
mais?
Sempre achei
um eufemismo pernicioso e cruel dizer que a terceira idade é a melhor idade. Precisamos cuidar melhor dos
nossos idosos, e respeitá-los é um bom começo. Sobre essa fase da vida, o poeta
esbraveja: “Na velhice, a pele deixa de ser a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície
exterior da alma. ...Pois a alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. ...Os velhos
terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles.”
Quanta sabedoria, não?
Embora o seu
livro seja todo sentimento, ele abre um capítulo especial que nos aquieta e nos
faz mais sensíveis. Eis alguns retalhos muito
inspirados desse tão querido cronista: “Tudo o que comove deve ser
repetido. A saudade é um buraco na alma
que se abriu quando um pedaço nos foi
arrancado. Mas alegria é um sentimento manso
que não depende da presença do objeto. O corpo humano também se alimenta de
ausências. Amar é ter um pássaro pousado
no dedo. Deus é a presença de uma ausência. Para mim, rezar é ser todo
sentidos: ver, ouvir, sentir os perfumes, sentir os “toques”. Não é lindo, tudo
isso?
Tenho sido um
árduo combatente ao excesso de conteúdos que se estuda na escola sem serventia
para a formação de cidadãos competentes e humanizados. Sobre essa temática, o
pedagogo radicaliza. A memória é um escorregador de macarrão: o que não vai ser
comido, ela esquece. Há pessoas que não
esquecem nada: memória perfeita. Geralmente esse fenômeno se observa em
idiotas. A educação se divide em duas partes: educação das habilidades,
educação da sensibilidade. Sem a educação da sensibilidade todas as habilidades
são tolas e sem sentido. Educação não é transmissão de uma soma de
conhecimentos. Conhecimentos podem ser mortos e inertes: uma carga que se
carrega sem saber sua utilidade e sem que ela dê alegria. Educar é ensinar a pensar, isso é, a brincar com os
conhecimentos, da mesma forma como se brinca com uma peteca. Que posso dizer
mais?
Certamente,
por não se perceber a importância da sensibilidade e da aprendizagem útil nas
escolas; provavelmente, por não se ter tido uma educação reflexiva e
“brincante”; por não se saber ler, pois mesmo os que se acham intelectuais, não
os são quando só leem o que lhes interessam e lhes confortam, temos visto tanto ódio, tanta discriminação,
tanta alienação. Que triste fica um país de maioria cristã tratando seus compatriotas com intolerância e
ódio. Que triste fica um país cujos interesses midiáticos são quase sempre espúrios.
Que triste fica um país cuja Justiça é geralmente caolha. Quem sabe, um dia, possamos
ir do Universo à Jabuticaba?