19 de jun. de 2018

QUEM SABE?


Acabo de ler com muita alegria mais um livro de Rubem Alves. Desta feita, DO UNIVERSO À JABUTICABA. De leitura fácil, o pedagogo, poeta, cronista, ensaísta, contador de história e psicanalista usa com sabedoria  ímpar cada palavra que escolhe. São profundas reflexões. Na verdade, uma coletânea de ideias sobre como ele vê a vida nos mais variados aspectos. É de ficar lamentando ao chegar o epílogo.
Então, trago à tona alguns dos seus encantadores pensamentos, pontos  de vista que enobrecem qualquer ser realmente humano. Como sou amante da boa música, logo no início fiquei reflexivo quando ele diz: “Ouvir música é encontrar-me com a beleza que existe dentro de mim”. Então pensei sobre o excesso de feiura de tantos que optam por músicas tão pobres em letra e em melodia. Canções que refletem preconceitos e intolerâncias sociais gritantes. Só mesmo uma educação musical escolar para reverter essa realidade.
Quase ninguém fica à vontade quando precisa falar sobre a morte. Não somos educados para falar sobre isso. Como pode, algo tão real, tão cotidiano, tão irreversível ser visto de forma tão distante? Sobre ela, o psicanalista evidencia: “...a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetuamos. Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza... Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo  a perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois...”  Para que mais?
Sempre achei um eufemismo pernicioso e cruel dizer que a terceira idade é  a melhor idade. Precisamos cuidar melhor dos nossos idosos, e respeitá-los é um bom começo. Sobre essa fase da vida, o poeta esbraveja: “Na velhice, a pele deixa de ser a superfície exterior  dos músculos e passa a ser  a superfície  exterior da alma. ...Pois a alma é apenas isso: o lugar onde  os poemas estão guardados. ...Os velhos terão  rosto de criança se a  criança eterna continuar viva dentro deles.” Quanta sabedoria, não?
Embora o seu livro seja todo sentimento, ele abre um capítulo especial que nos aquieta e nos faz mais sensíveis. Eis alguns retalhos muito  inspirados desse tão querido cronista: “Tudo o que comove deve ser repetido. A saudade  é um buraco na alma que se abriu quando um pedaço  nos foi arrancado. Mas alegria é um sentimento manso  que não depende  da presença  do objeto.  O corpo humano também se alimenta de ausências. Amar é ter um  pássaro pousado no dedo. Deus é a presença de uma ausência. Para mim, rezar é ser todo sentidos: ver, ouvir, sentir os perfumes, sentir os “toques”. Não é lindo, tudo isso?
Tenho sido um árduo combatente ao excesso de conteúdos que se estuda na escola sem serventia para a formação de cidadãos competentes e humanizados. Sobre essa temática, o pedagogo radicaliza. A memória é um escorregador de macarrão: o que não vai ser comido, ela esquece.  Há pessoas que não esquecem nada: memória perfeita. Geralmente esse fenômeno se observa em idiotas. A educação se divide em duas partes: educação das habilidades, educação da sensibilidade. Sem a educação da sensibilidade todas as habilidades são tolas e sem sentido. Educação não é transmissão de uma soma de conhecimentos. Conhecimentos podem ser mortos e inertes: uma carga que se carrega sem saber sua utilidade e sem que ela dê alegria. Educar  é ensinar a pensar, isso é, a brincar com os conhecimentos, da mesma forma como se brinca com uma peteca. Que posso dizer mais?
Certamente, por não se perceber a importância da sensibilidade e da aprendizagem útil nas escolas; provavelmente, por não se ter tido uma educação reflexiva e “brincante”; por não se saber ler, pois mesmo os que se acham intelectuais, não os são quando só leem o que lhes interessam e lhes confortam,  temos visto tanto ódio, tanta discriminação, tanta alienação. Que triste fica um país de maioria cristã  tratando seus compatriotas com intolerância e ódio. Que triste fica um país cujos interesses midiáticos são quase sempre espúrios. Que triste fica um país cuja Justiça é geralmente caolha. Quem sabe, um dia, possamos ir do Universo à Jabuticaba?